quarta-feira, 19 de maio de 2010

Uma ditadura que se quer esquecer

* Reportagem
"Chora a nossa pátria mãe gentil. Choram Marias e Clarices no solo do Brasil. Mas sei que uma dor assim pungente não há de ser inutilmente...". A letra de João Bosco, de O Bêbado e a Equilibrista, retrata o sofrimento de familiares de desaparecidos ao longo da ditadura. O lançamento da 2ª edição do livro Dossiê Ditadura - Mortos e Desaparecidos Políticos no Brasil, trouxe à tona lembranças de uma época que muita gente preferiria esquecer.

fotos Gabriela Perufo 
Ontem, os departamentos de História da UFSM e UFRGS e a Comissão de Cidadania e Direitos Humanos da Assembléia Legislativa do RS promoveram o debate/lançamento da 2ª edição do livro. O lançamento ocorreu na Seção Sindical dos Docentes da UFSM (Sedufsm).
O debate teve a coordenação do professor do Departamento de História da UFRGS, Enrique Padrós e do chefe do Departamento de História da UFSM, prof. Diorge Konrad. "Essa luta constante significa trazer à tona a memória e mostrar que ela persiste diante de uma série de problemas", comenta Enrique Padrós.
A guerrilheira Criméia de Almeida, que esteve na Guerrilha do Araguaia, e Suzana Lisboa, mulher de Luiz Eurico Lisboa (político desaparecido e irmão de Nei Lisboa), são co-autoras do livro, que reúne pesquisas e depoimentos de familiares dos desaparecidos na ditadura.
Suzana explica que a comissão dos familiares dos desaparecidos se constituiu naturalmente, quando se encontravam nos corredores policiais e quartéis à procura de seus parentes.
"Queremos a aplicação da Lei da Anistia. Não somos revanchistas, apenas queremos a verdade e a justiça", esclarece Suzana Lisboa. Segundo ela, até hoje os familiares não sabem como e onde foram mortos os ‘desaparecidos', em quais circunstâncias e quais os responsáveis pela morte. "Nosso objetivo é que os corpos sejam entregues aos familiares e que haja a punição dos responsáveis. Mas até hoje, não conseguimos isso", revela.
Criméia de Almeida, ex-guerrilheira e também mulher de político desaparecido, comenta que no decorrer das buscas por pistas de seus familiares, conseguiram entrar nos arquivos do DOPS e de IMLs. Ao revirar gavetas, encontravam fotos dos seus parentes torturados, quando a explicação para suas mortes era de suicídio.
"Sabemos que estão fora desse livro grande parte dos brasileiros que foram assassinados pela ditadura", comenta Criméia. A primeira edição do livro foi feita em 1984. Após o término da segunda edição, outros casos ainda surgiram. "Essa é a história da nossa busca. E não é a história final, infelizmente", conclui a ex-guerrilheira.

* Reportagem publicada no site Agência CentralSul (27/11/2009)

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